Até a
idade de três anos, ele não falou uma única palavra. Aos nove,
tinha ainda tantas dificuldades de se expressar que seus pais
temeram que pudesse ser retardado mental. Na escola, um professor
profetizou que ele não seria nada na vida. Com apenas 26 anos,
porém, publicaria sua Teoria Especial da
Relatividade - uma das mais extraordinárias revoluções
da história das idéias.
Einstein
alcançou uma dimensão só comparável à do filósofo grego Aristóteles
(século IV a. C.) e à do físico inglês Isaac Newton (1643-1727).
Sua Teoria da Relatividade seria o marco fundador da Física
contemporânea, com profundas repercussões em outros ramos da
ciência. Ela daria a chave para a explicação da origem do Universo
e para a desintegração do átomo. Mas a bomba atômica é a filha
indesejada das elocubrações desse pacifista radical - um homem de
bem com o mundo e a vida.
O físico
brasileiro Mário Schenberg, que teve a sorte de conhecer Einstein
pessoalmente, quando esteve na Universidade de Princeton, nos
Estados Unidos, nos anos 40, lembra-se dele "com seu jeito muito
simples, um grande casacão que costumava abotoar até a altura do
pescoço, sandálias que nunca abandonava e imensa cabeleira. Essa
imagem, algo como a de um velho hippie, seria registrada em
incontáveis fotografias. Ele mesmo ironizou certa vez o assédio dos
fotógrafos ao preencher numa ficha de hotel: “profissão:
modelo”.
Dono de
convicções profundamente democráticas, que o faziam tratar qualquer
pessoa com igual distinção, Einstein era também portador de
modéstia verdadeiramente encantadora. O físico Banesh Hoffman, que
em 1972 escreveu uma importante biografia dele, lembra-se que, ao
encontrá-lo pela primeira vez, estava muito nervoso por falar com
um homem que era uma celebridade. Einstein pediu-lhe que expusesse
suas idéias e acrescentou: "Mas, por favor, fale devagar, pois
tenho dificuldade em entender as coisas rapidamente". A frase teve
um efeito mágico, deixando Hoffman inteiramente à
vontade.
Albert
Einstein nasceu em 14 de março de 1879, numa família judia
residente na pequena e velha cidade alemã de Ulm, às margens do
Danúbio. Já no ano seguinte, os Einstein se mudaram para Munique,
onde o pai, Hermann, e o tio Jakob, instalaram uma pequena oficina
eletrotécnica. Do confronto com a massacrante disciplina do ensino
alemão do século passado resultou a aversão de Einstein por
qualquer forma de rigidez mental. Anos mais tarde. ele se referiria
a seus professores como " sargentos
disciplinadores".
Durante
muito tempo, por um erro de avaliação dos boletins escolares,
acreditou-se que Einstein tivesse sido um aluno medíocre. Seria
melhor defini-lo como desajustado. Pois estudos biográficos mais
recentes o mostram como um prodígio, dominando a Física de nível
universitário antes dos 11 anos de idade.
Da mãe,
Pauline, Einstein puxou sua natureza sonhadora, imaginativa. Foi
ela também quem o pôs em contato com o violino, quando ele tinha 6
anos. Einstein ironizaria mais tarde sua capacidade musical: "Só eu
apreciava o que tocava". Os biógrafos, porém, garantem que, embora
pudesse não ter o virtuosismo de um profissional, era um violinista
brilhante. Seja como for, os dons que herdou da mãe — a
música e o devaneio seriam seus maiores refúgios nos momentos
difíceis da vida.
Outra
influencia familiar - dos tios Jakob e Cäsar Koch - o empurrou para
a Física e a
Matemática. Aos 12 anos, travou contato com um livro sobre a
Geometria de Euclides. Sua paixão infantil por instrumentos como a
bússola tomava agora rumos mais ambiciosos, e ele decidia dedicar a
vida a desvendar os mistérios do "grande
mundo".
Três anos
mais tarde, a família se mudava para Milão, Itália. Einstein adorou
os campos verdes e ensolarados da Toscana - e a oportunidade de
escapar da escola por um ano. Sem dinheiro. viajava de carona - e
devaneava. Aos 16 anos, por exemplo, se pôs a pensar em como uma
pessoa veria um raio de luz se pudesse viajar ao lado dele, em
velocidade aproximadamente igual. Essa divagação que anotou num
ensaio, seria o ponto de partida para sua Teoria Especial da
Relatividade.
Na
primeira tentativa de entrar para a renomada Escola Politécnica de
Zurique, foi reprovado no vestibular. Ele tinha ainda 16 anos -
dois a menos do que a idade-padrão para ingresso no ensino
superior. Um ano mais tarde, melhor preparado, conseguiu passar nas
provas de admissão. Continuava a ser, porém, um aluno rebelde,
faltando às aulas, lendo o que não constava do currículo e
irritando os professores com perguntas consideradas impertinentes.
Formou-se em 1900, graças ao amigo Marcel Grossmann, aluno
irrepreensível, que lhe emprestava anotações de aula. Mas estudar
para os exames finais teve um efeito tão inibidor sobre ele que,
durante um ano, considerou "desagradável qualquer problema
científico".
Depois da
formatura, adotou a cidadania suíça. Rejeitado na tentativa de se
tornar professor universitário, conseguiu emprego como técnico de
terceira classe no Serviço Suíço de Patentes, em Berna. O cargo era
medíocre, mas tinha a vantagem de lhe dar bastante tempo livre para
as próprias divagações e cálculos científicos, que Einstein
escondia na gaveta assim que ouvia passos se
aproximando.
É o
máximo da ironia pensar que as anotações que iriam revolucionar o
mundo precisavam ser ocultadas para que os colegas e os superiores
não descobrissem que ele estava se dedicando a outras atividades no
local de trabalho.
Em 1903,
casou-se com sua ex-colega de escola, Mileva Maric, com
quem passou a viver num modesto apartamento perto do emprego. Dois
anos depois, publicaria na prestigiosa revista científica alemã
Annalen der Physik um conjunto de quatro artigos que iria
revolucionar seu destino - e o conhecimento
humano.
O
primeiro tratava do chamado movimento
browniano - o ziguezague feito pelas partículas em
suspensão num líquido. Einstein mostrou como esse movimento
permitia compreender a natureza das moléculas. O segundo
investigava a causa do efeito
fotoelétrico - -o fato de certos corpos emitirem
elétrons quando atingidos pela luz. Ele explicou que isso se devia
ao fato de que a luz, até então tratada pela Física como uma
onda continua, era composta de diminutas partículas de
energia.
No
terceiro artigo, apresentava ao mundo sua Teoria Especial da
Relatividade, em que subvertia as idéias fundamentais da
Física clássica,
ao mostrar que o espaço e o tempo não eram grandezas absolutas,
independentes dos fenômenos, como pensara Newton, mas grandezas
relativas, que dependiam do observador (veja o quadro da página 58
). No quarto artigo, finalmente, a partir de um desenvolvimento
matemático da Teoria Especial da
Relatividade, constatava a equivalência entre massa e
energia, expressa na famosa equação E = mc2.
As quatro
comunicações de 1905 feitas por um funcionário público de apenas 26
anos, trabalhando nas horas vagas, foram uma façanha realmente
espantosa. Não é por acaso que muitos historiadores da ciência
chamam 1905 de "o ano milagroso". Ele só tem paralelo com o ano de
1666, quando Newton, aos 24 anos, isolado no campo devido a uma
epidemia de peste bubônica, produziu uma explicação para a natureza
da luz, criou os cálculos diferencial e integral e ainda vislumbrou
sua futura Teoria da Gravitação
Universal.
Mas a
fama não veio imediatamente para Einstein. O Prêmio Nobel de
Física, por
exemplo, só lhe seria dado em 1921. Ao contrário do que muita gente
pensa, ele foi contemplado não pela Teoria Especial da
Relatividade nem pela Teoria Geral da
Relatividade, de 1916, suas duas maiores contribuições à
ciência, mas pelo estudo sobre o efeito
fotoelétrico.
De
qualquer forma, os artigos de 1905 tornaram-no respeitado pelos
mais eminentes físicos da Europa. Suficientemente respeitado para
que pudesse logo trocar o modesto emprego de inspetor de patentes
pela carreira de professor universitário. Assim como o tempo
relativo de sua teoria flui em diferentes velocidades, dependendo
do observador, também seu tempo existencial começava a correr mais
rápido.
Em I9l4,
está de volta à Alemanha, atraído por um convite da Academia
Prussiana de Ciências. A Primeira Guerra Mundial o apanhou na
capital alemã, enquanto a mulher e os dois filhos passavam férias
na Suíça. A separação forçada acabaria apressando o fim de seu
casamento, que já não era muito sólido. Não foi por motivos
pessoais, porém, que Einstein se colocou ativamente contra a
guerra.
Eram
razões de consciência muito profundas que faziam dele uma das
poucas grandes vozes a se levantar contra a conflagração que
eliminava milhares de vidas.
Um
"sentimento cósmico religioso` o impelia à Física teórica, em
busca dos fundamentos mais gerais do Universo. Relutantemente, ele
admitia também um "apaixonado senso de justiça e responsabilidade
social". Foi essa dimensão ética, que tem tanto a ver com a
tradição profética judaico, embora Einstein não seguisse nenhum
rito religioso, que o levou ao pacifismo e, mais tarde, ao
socialismo democrático.
Os quatro
anos da Primeira Guerra Mundial assistiram à síntese perfeita
desses dois lados de sua personalidade. Enquanto se aprofundava
cada vez mais na propaganda antibelicista, mergulhava também num
dos mais extraordinários processos de elaboração mental já
ocorridos na história da ciência. Seu assunto era agora a gravitação, essa
característica da natureza que faz com que uma pedra atirada ao ar
caia de volta na Terra e mantém os planetas em órbita ao redor do
Sol. Mais uma vez, Einstein confrontava uma das interpretações
centrais da Física
newtoniana.
Newton
pensara a gravitação como
uma força que agia à distancia entre os corpos. Einstein concebeu a
gravitação como
uma curvatura provocada no espaço-tempo pela presença de massa.
Essa ousada idéia, tornada pública em 1916, com a publicação da
Teoria Geral da
Relatividade, completava a demolição do edifício da
Física clássica,
iniciada em 1905.
Em 1919,
as predições feitas pela Relatividade Geral eram confirmadas pela
observação. O impacto foi espetacular: logo Einstein era
considerado, talvez até com certo exagero, o maior gênio de todos
os tempos. As solicitações da fama o arrastariam a inúmeros países,
inclusive o Brasil. Algo contrariado, ele temia que isso
prejudicasse suas atividades científicas.
Já em
1919, o excesso de trabalho quase o levara à morte por esgotamento
físico. Os amigos que o visitavam contam que ele não tinha hora
para parar de trabalhar e que, muitas vezes, só deixava a
escrivaninha quando alguém insistia para que fosse deitar. Durante
o período de recuperação, uma das pessoas que tratou dele foi sua
prima Elsa Lowenthal. Naquele
mesmo ano, Einstein se casaria com ela.
Durante a
década de 20, a ascensão do nazismo na Alemanha o chamou de volta à
atividade política. Abdicando de sua inclinação natural pela
quietude e a contemplação, ele se empenhou com toda coragem contra
o novo regime que se desenhava no horizonte. Ao mesmo tempo, as
crescentes ameaças aos judeus na Europa o levaram a aderir à causa
sionista, com sua reivindicação de um território nacional judáico.
Os nazistas responderam ao seu engajamento com uma violenta
campanha de calúnias.
Quando
Hitler chegou ao poder, em 1933, Einstein percebeu que sua
permanência no pais se tornara insustentável. Decidiu aceitar o
convite da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, para que
integrasse seu Instituto de Estudos Avançados. Após deixar a
Alemanha, soube que os nazistas haviam posto sua cabeça a prêmio
por 20 mil marcos - uma pequena fortuna, à época. "não sabia que
valia tanto", comentou, irônico.
A
avaliação que tinha sobre seu "valor monetário" era realmente
modesta. Quando os americanos lhe perguntaram que salário
considerava justo para si, sugeriu a ninharia de 3 mil dólares
anuais. Diante do espanto dos interlocutores, achou que tinha
exagerado - e propôs uma quantia ainda menor. Acabou con-tratado
por 16 mil dólares por ano.
O
excepcional prestígio de que desfrutava fez com que naturalmente se
transformasse num pólo de atração para os muitos cientistas
europeus imigrados nos Estados Unidos.Sob a pressão desses
cientistas apavorados, com a possibilidade de a Alemanha nazista
fabricar, a partir da própria Teoria da Relatividade. a bomba
atômica e conquistar o mun-do, Einstein concordou em subscrever a
famosa carta ao presidente Norte-americano Franklin Roosevelt,
recomendando que os Estados Uni-dos acelerassem suas pesquisas rumo
à arma atômica. Quando soube mais tarde que os nazistas estavam
muito longe de fabricar a bomba, Einstein lamentou profundamente a
decisão que havia tomado.
Seus
últimos 20 anos de vida, passados nos Estados Unidos, foram
relativamente pacatos. Instalado no campus da Universidade de
Prince-ton, seu tempo era dividido entre as três atividades
prediletas: tocar violi-no, velejar e devanear. Só que seus
devaneios tomavam a forma de uma Teoria Unificada do Campo, capaz
de sintetizar os dois grandes ramos em que estava dividida a
Física na época: a
gravitacão e o eletromagne-tismo. Ou seja, ele procurava nada menos
que a lei geral do Universo.
Einstein
morreu no dia 18 de abril de 1955, sem: realizar esse seu último
sonho. Não admira: os físicos continuam a sonhá-lo até
hoje.
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